03 Agosto, 2008

esperaria

acordar em um colchão alugado, embaixo de um edredom colorido à mão. guardar sob o travesseiro uma camisa grande demais. o cheiro aos poucos estaria desaparecendo, mas por mais sutil que fosse, aquela essência bastaria para trazer para perto quem estava longe. tomar o suco de laranja com sumo, tentar preparar um pão com ovo. hábitos que não eram originalmente seus, mas que seriam incorporados para trazer para perto quem estava longe.

quatro horas de distância e alguém acordaria tarde, tomaria um leite, bebendo até a última gota. tomar banho e ver-se completamente nu, exceto pelo cordão em seu pescoço e o pingente pendendo sobre seu peito. e iria acariciar a prata, tentando imaginar como o outro pingente estaria a pender sobre os seios de quem estava longe.

entre aulas, livros, corridas, bebidas, vídeos e fotos, haveriam momentos a se dividir, haveriam dúvidas e haveria medo. maldizer a distância, chorar pela saudade.

mas no final do dia, deitar a cabeça no travesseiro, lembrar de um cheiro, de um gosto, de um instante e sentir que, naquele mesmo momento, há um oceano de distância, alguém deita a cabeça sobre um travesseiro, vestindo uma camisa grande, lembrando de um jeito, de um beijo, de um rosto.

e haveria um conforto na espera.

27 Julho, 2008

nomes e números

seus olhos vermelhos e úmidos buscavam uma proximidade que parecia distante. procuravam fixamente no mesmo lugar alguma resposta. ele olhava bem nos olhos dela. daquele jeito preocupante. e, como já cantava o chico, "seu olhar era de adeus".

sua mão percorria a coxa esquerda dela, cruzada sobre a perna direita. para mudar de marcha, ele tirou a outra mão do volante. seus dedos então pediram pelos dela. e eles se deram as mãos.

sua boca abria-se e fechava-se sem pronunciar palavra. a respiração falhava, o esforço não era apenas emocional, mas físico. e ela o beijou.

seus cabelos entre os dedos dela. ela deixa que a ponta de seus dedos tocassem levemente o couro cabeludo, enquanto afagava os fios que alcançava. e ela se via, refletida no espelho.

- já é tarde.
- ainda é cedo.
- são 3h.
- ainda tá cedo.
- tenho que acordar cedo amanhã.
- não dorme.
- tenho que ir.
- vai agora não.
- cinco minutos.

seus dedos continuaram se acariciando mutuamente.

- você tem certeza disso então?
- vai ser melhor assim.
- melhor pra quem? pra você?

havia uma raiva que escapava entre as palavras sussurradas.
foi preciso respirar profundamente para responder.

- pros dois.

"odeio isso. odeio fim. odeio essa dor. odeio essas porras todas. pára de chorar, caralho."

eles ainda se mantiveram calados, tocando-se levemente, porém evitando a troca de olhares.
já se aproximava de 4h.

- odeio essas porras todas.
- quê?

não era necessária a repetição. o mesmo pensamento já havia lhe ocorrido.

- dor, lágrima. tá sentindo a tensão no ar também?
- não muito.
- por que essas coisas acontecem?
- acontece.
- então é isso? acontece?
- sim.
- acontece o caralho.

do lado de fora, a chuva começava timidamente.

- sabe o que eu acho pior em acabar namoro?
- você fala como se já tivesse acabado muitas vezes.
- tá acabando agora, não tá? já são duas vezes.
- o que é que você acha pior em acabar namoro?
- é que eu sei que eu vou ser canalha, porque eu posso. mas você... você vai ter alguém. alguém especial, com nome, telefone, msn. alguéns. você vai ter nomes. eu vou ter números. e eu vou te machucar talvez intencionalmente tentando não me sentir o lixo que estou sentindo agora.
- você vai fazer isso?
- já fiz isso antes.
- acho que está na hora de você ir.
- já vou tarde, não é mesmo?
- quê?
- nada. tchau.
- até mais.
- claro.

21 Março, 2008

3:33

o visor digitalmente lhe dizia as horas. 15:33.
mentalmente ela lia: 3 e 33.

quase institivamente, ela riu expirando alto, com um resmungo gutural. ironicamente com um sorriso esboçado no rosto. contra a vontade, o sorriso abriu-se desenhando uma face artificial e feia.

às 3:33 daquela madrugada ela saía de um motel.

exatamente doze horas depois ela estava em frente à tv, escapando do convívio de conveniência que já não agüentava. na tela, rostos bonitos com seu inglês impecável contavam-lhe histórias que ela não queria ouvir.
e não ouvia.

ela estava saindo do motel às 3:33 daquela madrugada. e não queria estar às 3:33 daquela tarde pensando na comédia que se desenrolava à sua frente. preferia pensar seu papel no drama tragi-cômico que desempenhava nas madrugadas do final de semana.

três dias. três e trinta e três. há três meses.

não, não eram três meses. ela balançou a cabeça como quem afasta uma idéia. haveria algo de poesia se fossem mesmo três meses. mas justiça, mesmo poética, nunca fez parte dessa história.

ela sabia que não era mais apenas físico, que já não se tratava apenas de pele, pêlo, dedo, boca.
ela sentia falta. e se perguntava se seria tarde demais.

tentava visualizar a si mesma afastando-se, evitando, desfazendo. no entanto, tais imagens pareciam irreais demais para serem suficientes. apenas seu orgulho lhe dizendo para parar não bastava. não enquanto houvesse uma outra parte gritando dentro dela que valia a pena.

o problema dela é que ela reconhecia que essa parte deixava lentamente de estar entre suas pernas e subia para onde quer que esteja fisicamente isso que chamam de coração.